A Polícia Federal deflagrou uma operação para desarticular uma organização criminosa ligada à cúpula do Comando Vermelho (CV) nesta quarta-feira. As investigações identificaram um esquema de corrupção envolvendo chefes do CV e agentes políticos e públicos, incluindo um delegado da PF, policiais militares, um ex-secretário municipal e estadual, e um deputado estadual. A ação integrada contou com a participação de diversos órgãos, como a Polícia Federal, a Polícia Civil e o Ministério Público, e resultou na prisão de 15 pessoas. Entre os presos está o deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva (ex-MDB), conhecido como TH Jóias, que foi localizado em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio.
Além de TH, foram presos: Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, apontado como traficante; Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, o Dudu, assessor de TH Jóias; o ex-secretário Alessandro Pitombeira Carracena; o delegado da Polícia Federal Gustavo Stteel, que estava de plantão no Aeroporto do Galeão; e três policiais militares. Outras oito pessoas também foram detidas.
Facção se infiltrou na política
A investigação revelou que TH Jóias usava o mandato para favorecer o crime organizado — inclusive nomeando comparsas para cargos na Alerj — e atuava na intermediação da compra e venda de drogas, fuzis e equipamentos antidrones. Segundo o Ministério Público, ele chegou a indicar a esposa de um traficante do Comando Vermelho (CV) para um cargo parlamentar.
Apesar do suposto favorecimento, a Polícia Federal afirma que sua atuação não se restringia a uma única facção: ele também articulava negócios para o Terceiro Comando Puro (TCP) e para a facção Amigos dos Amigos (ADA).
— O TH lucrou muito com a importação de antidrones, adquiridos em grande quantidade para o CV, o TCP e a ADA. Quem comandava essas negociações era o Índio, mas, como não podia aparecer por ser um dos principais integrantes do Comando Vermelho, usava o Dudu para intermediar. E o Dudu era assessor do TH. Além dele, outros dois assessores na Assembleia Legislativa estão sendo investigados, e um terceiro já foi preso por envolvimento no tráfico de drones — informou o superintendente da PF no Rio, Fábio Galvão.
De acordo com o secretário de Polícia Civil, delegado Felipe Curi, a investigação comprova a infiltração direta do crime organizado no parlamento fluminense.
— O deputado, eleito para representar a sociedade, colocou seu mandato a serviço da maior facção criminosa do Rio de Janeiro. A operação é mais uma demonstração de que não haverá blindagem política para criminosos: seja o traficante armado na favela ou de terno na Assembleia, a resposta do Estado será a mesma. Precisamos tirar essas pessoas de circulação porque são extremamente perigosas. Não podem ter esse tipo de alcance. Usam o cargo e o tráfico de influência para se fortalecer dentro da facção criminosa — afirmou.
Segundo Curi, TH participava de eventos e fazia vídeos ao lado de autoridades justamente para se fortalecer dentro do Comando Vermelho.
R$ 120 milhões
A mulher indicada para o cargo parlamentar e citada na investigação é esposa de Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão. Ele é apontado pelas autoridades de segurança como braço direito de Luciano Martiniano da Silva, o Pezão — também alvo da operação — e como uma espécie de tesoureiro do CV. De acordo com a PF, ele movimentou R$ 120 milhões em cinco anos e é suspeito de atuar na compra e venda de armas e drogas, além de ser responsável por proteger integrantes da quadrilha, pagando policiais para escoltar o grupo.

Ex-secretário também foi preso
Preso nesta quarta-feira, o ex-secretário Alessandro Pitombeira Carracena é suspeito de receber dinheiro da facção para vazar informações sigilosas e atender a interesses por meio de contatos adquiridos na vida pública, de acordo com a Polícia Federal. Segundo o superintendente da PF no Rio, Fábio Galvão, ficou evidente a participação do subsecretário em ações para auxiliar o Comando Vermelho:
— Há um episódio da investigação que mostra quando uma unidade do Batalhão de Choque foi instalada na Gardênia, comunidade da Zona Oeste do Rio. Essa base atrapalhava o CV. O subsecretário recebeu uma ligação do TH, depois que ele havia falado com o Índio, e fez uma ingerência para retirar o batalhão de lá. Os criminosos conseguiram se infiltrar na polícia e na Assembleia Legislativa. Isso é muito perigoso
Carracena já foi secretário municipal de Ordem Pública da capital, na gestão de Marcelo Crivella na Prefeitura do Rio, em 2020, e secretário estadual de Esporte e Lazer do Rio, na gestão do governador Cláudio Castro, em 2022. Ele foi subsecretário estadual de Defesa do Consumidor, cargo do qual foi exonerado em janeiro deste ano.
Titular da pasta, Gutemberg Fonseca esclareceu que Carracena ficou um ano a serviço da secretaria. Na ocasião, ele pediu para ser exonerado para atuar como advogado, profissão na qual é formado, em um escritório.
— Jamais ele deixou a imaginar que tivesse alguma ligação com B, C ou D. É muito técnico, profissional, estava sempre com a família. Para a gente, isso (a prisão) é uma grande surpresa — disse Gutemberg, pontuando que conhece Carracena há 20 anos e que, como advogado, o ex-subsecretário era “muito ético e técnico da matéria de defesa do consumidor”.
O ex-secretário já ocupou também os cargos de diretor de operações em autarquia municipal; de presidente do Fundo Especial de Ordem Pública da cidade do Rio; de presidente do Conselho Administrativo da Guarda Municipal da capital; e de integrante do Gabinete de Crise da cidade durante o período da pandemia.
Policiais e delegado no esquema
De acordo com a Polícia Federal, os policiais suspeitos de envolvimento vazavam informações para a facção e forneciam segurança no transporte de traficantes, dinheiro e armamentos. Segundo a PF, a organização criminosa contava com quatro policiais militares da ativa, um da reserva e um agente do Degase.
— A função deles era vazar informações. Constatamos que o policial da reserva ainda tinha acesso a bancos de dados e repassava dados de interesse da facção. Outro trabalho do grupo era o de garantir a segurança no transporte de traficantes, armas, drogas e dinheiro. Em resumo, policiais fazendo “leva e traz de interesse da facção” e escolta de traficantes e de dinheiro, de drogas e de armas. — afirmou Galvão.
Além de três PMs, também foi preso na operação o delegado federal Gustavo Stteel, acusado de também repassar informações ao Comando Vermelho. Ele foi detido durante o plantão na Delegacia da PF no Aeroporto do Galeão, na Ilha do Governador.
Duas operações
Nesta quarta-feira, duas operações foram deflagradas em conjunto porque tinham investigações convergentes conduzidas pel Polícia Civil, Polícia Federal, Ministério Público Federal e Ministério Público Estadual. Uma foi feita pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes da PF e envolvia crimes de organização criminosa armada, lavagem de capitais, crimes contra o sistema financeiro, contrabando e comércio, tráfico internacional de drogas e armas. Essa investigação correu no Tribunal Regional Federal em razão do foro por prerrogativa de função de um deputado estadual.
A outra focou em associação criminosa e venda ilegal de armas no comércio interno e foi conduzida pela Ficco-RJ. Foi feito um planejamento para que ambas ocorressem ao mesmo tempo, a fim de não prejudicar o desdobramento de nenhuma delas. Nessa operação, a Procuradoria-Geral de Justiça do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou TH, Pezão, Dudu, Índio e mais uma pessoa. Para todos foram imputados os crimes de associação para o tráfico de drogas e comércio ilegal de armas de fogo de uso restrito, segundo o MPRJ.
A PF saiu para cumprir, todo, 18 mandados de prisão preventiva e 22 de busca e apreensão em endereços, além da Barra, na Freguesia, na Zona Oeste da capital, e em Copacabana, na Zona Sul. Foram feitas buscas na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Policiais federais e procuradores deixaram o local com um malote contendo apreensões.
Eleito para atender aos interesses do CV
O procurador-geral de Justiça, Antônio José Campos Moreira, afirmou que não é possível dizer que o tráfico elegeu TH Jóias, mas afirmou que o parlamentar foi eleito para atender aos interesses do CV. De acordo com o procurador, há uma preocupação de que a facção esteja usando o poder financeiro adquirido com a expansão de territórios para se infiltrar na política:
— Além da expansão territorial, que precisa ser contida, as organizações não se limitam a dominar territórios. Elas estão ampliando o controle e ocupando bairros até então tradicionais e residenciais. Esse poder econômico, obtido a partir do domínio territorial, acaba revertendo, como neste caso, para a obtenção de poder político. É preciso frear essa expansão do poderio econômico, que é usado para comprar agentes públicos, e impedir que pessoas ligadas a elas cheguem ao poder.
Moreira também afirmou que o caso evidencia a necessidade de uma investigação mais rigorosa sobre as candidaturas nas próximas eleições.
— Para evitar que pessoas assim obtenham registro de candidatura, é preciso que haja uma investigação prévia mais efetiva. Também é necessário que os partidos tenham consciência e não incluam em seus quadros pessoas com esse perfil — frisou.
Ele disse ainda que não há elementos na investigação que apontem para envolvimento de outros parlamentares ou autoridades.
Operação vazada
Galvão afirmou que será instaurado um inquérito para apurar um possível vazamento da Operação Zargun. A suspeita surgiu porque TH Jóias deixou sua casa na noite de terça-feira, por volta das 21h44, o que indica que poderia ter sido avisado sobre a ação. Apesar da prisão de um delegado federal durante nesta quarta-feira, Galvão disse não acreditar que ele tenha sido o responsável pelo vazamento.
— Houve um vazamento, e vamos instaurar um inquérito policial para identificar o responsável. Possivelmente chegaremos ao autor — declarou.
O procurador-geral do Estado também informou que também determinará a abertura de um procedimento investigatório para apurar o possível vazamento da operação.
Sequestro de bens
Durante as investigações, a polícia identificou movimentações financeiras suspeitas envolvendo empresas ligadas a TH Jóias, com sucessivos alertas emitidos por instituições financeiras, o que reforça a suspeita de lavagem de dinheiro.
O Tribunal Regional Federal da 2ª Região determinou o sequestro de bens e valores dos investigados, totalizando R$ 40 milhões, além do afastamento de agentes públicos, suspensão de atividades de empresas utilizadas para lavagem de dinheiro e transferência emergencial de lideranças da facção para presídios federais de segurança máxima. A ação desta quarta é ação conjunta entre PF, MPF, MPRJ e PCERJ – por meio da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Rio de Janeiro (FICCO/RJ).
Ao ligar para o gabinete de TH Jóias, a informação fornecida pela atendente é que a equipe não tem nada a pronunciar sobre o caso.
Já a Polícia Militar observa que os policiais presos serão conduzidos à unida prisional da corporação. “Ressaltamos que o comando da Corporação não compactua e nem tolera quaisquer desvios de conduta, cometimento de crimes ou abuso de autoridade praticados por seus entes, punindo com rigor os envolvidos quando constatados os fatos”, diz a PM, em nota. O GLOBO tenta contato também com a defesa dos demais alvos da operação. O espaço segue aberto para qualquer manifestação.
Depois da notícia pelas buscas de TH Jóias, o Diretório Regional do MDB, partido pelo qual ele disputou a eleição, informou que decidiu expulsar o parlamentar.



