Elevar-se ao pensamento crítico de seu tempo é uma obrigação cidadã pela democracia. Não há causa ganha sem luta e não há democracia sem debate. O embate de ideias sobre a sociedade é um dever cívico que só os estadistas se dispõem a travar. Não há outro caminho senão ampliar os espaços de discussão política fora da polarização, do maniqueísmo, do simples não pensar.
A ordem estabelecida nos distancia dos focos estruturais de nossas mazelas e induz o cidadão comum a se conformar com sua condição de miséria alimentando os discursos dos salvadores da pátria que perpetuam seus caudilhos com migalhas aos incautos dependentes da caridade alheia. Impera a lei da fome e se deixa de pensar com o cérebro e se passa a agir com o estômago.
Não há poder maior para um representante da ordem do que dar ao homem qualquer tipo de benesses que o faça se sentir superior ao seu próximo. Não é coincidência o fato das políticas compensatórias de distribuição de renda, seja por programas sociais ou em forma de poder de crédito, serem distribuídas apenas para uma minoria específica da sociedade. Assim, ao invés de se lutar para que essas benesses sejam expandidas para o maior número de pessoas possíveis, as classes passam a lutar por mais do mesmo ao ponto de passarem a lutar contra si, definindo o quadro daqueles que adotam seus políticos de estimação, abrindo mão de um projeto amplo e equânime. Definitivamente, isso não dá voto.
Precisamos prestar mais atenção no que fazemos e no que fazem de nós. Estamos nos agarrando a uma lógica suicida de alimentar uma polarização cega, criando salvo conduto para líderes assumirem sua autocracia em nome de uma democracia que parece se resumir apenas ao voto. Não é possível acreditar que mudando os personagens se mudará a ordem. Na verdade, o que importa mesmo, está passando despercebido e caminhamos por direções diferentes para o mesmo abismo.
Ainda haverá tempo para um revisionismo ideológico? Não! O cidadão comum não tem condições de pensar com fome, sem emprego, sem dignidade, sem cidadania. Mas é preciso ter a consciência que estamos sendo influenciados, hora pelo ódio, hora pelo medo. Prefiro acreditar que haja uma via melhor.
Por Mardonio Gomes



