Após a barreira imposta pela imprensa de cem dias de governo, o arranjo feito por Lula com uma super estrutura de coalisão, passou pelo escrutínio dos institutos de pesquisa, pela imprensa ainda chamada de golpista por alguns mais apaixonados e pelo mercado financeiro expeculativo positivamente. Embora ainda não tenha se colocado à prova no Congresso e não tenha apresentado menhuma mudança estruturante, o governo Lula tem avançado bastante nas pautas identirárias e na retomada de programas sociais importantíssimos para garantia de bem estar social das camadas mais pobres da população.
A caminhada para o lado mais liberal e a decisão de não enfrentamento ao baronato na questão fiscal ainda divide opiniões entre aliados e opositores. Para alguns, Haddad tenta levar a “esquerda” esclarecida para o centro liberal. Para outros, os elogios a suas pautas e condução da economia pelo baronato e pelos banqueiros / Faria Lima, soa como uma esquerdização da elite. O fato é que o jarro se encheu de água nova e fresca mas a borra não foi tirada e a água fresca está turva e mexida. Lula tem duas opções: ou joga toda água fora, lava o jarro e recoloca água fresca e límpida, ou vai aos poucos esperando a poeira assentar. O problema é que não há como desbolsonarizar bolsonaristas radicais apenas com cargos no governo. O facismo irraigado nessas personagens nefastas é irreversível. Nem o charme e o carisma inegáveis em Lula são capazes de converter esses militantes do mal. Ainda assim, em nome de uma governabilidade improvável, a grande maioria dos quadros de 2⁰ e 3⁰ escalões do governo é composto por células bolsonaristas em nome de uma lealdade impossível.
Um deputado ligado ao centrão, ao ser perguntado se o governo teria dificuldades em aprovar emendas no congresso respondeu: “Lula não terá problemas pra aprovar nenhuma medida desde que nós quisermos que seja aprovada”. Arthur Lira espera a hora em que Lula sentará para negociar, Pacheco custará menos mas a grande prova se dará quando as MPs e os PLs para condução das mudanças a partir de agosto se puserem ao julgo do parlamento.
Lula já deixou claro em atos e discursos que a hora é de se consolidar. Dar doses pequenas de uma idéia do que virá. Eu, pessoalmente, acredito que nem o próprio PT sabe pra onde o governo vai. Não é a tôa que Gleise Hoffman atua em Brasília como uma sombra de Lula tendo mais protagonismo que muitos ministros de Estado.
Cem dias superados e ainda não nos convencemos de que a eleição acabou. O clima de polarização ainda é latente e a eugenia criada entre os dois lados ainda é a mola propulsora das discussões políticas. Ainda falta muito para que a pacificação institucional se consolide. A depender da imprensa, vai demorar o máximo possível pois não há audiência sem uma guerra para narrar.
Aquietados os ânimos, temos tudo para aproveitarmos o “time” [tái-me] da história e tirarmos proveito consolidando nossa democracia e retomando a civilidade na política. Mas é preciso enfrentamento efetivo ao facismo pelo exemplo. Chegará o momento em que o PT e Lula deverão decidir se anistiam o bolsonarismo ou se assumem uma postura de enfrentamento efetiva. Afinal, até agora, há mais discurso do que ação. De boas intenções, o cidadão, nossa paciência e o inferno estão cheios.



