Essa foi a grande conclusão de Simão Bacamarte ao enlouquecer em seu mundo quixotesco. O pobre Doutor, acabou construindo um hospício e queria confinar ali toda a cidade pois, em seus delírios, todos estavam loucos, menos ele. Pois bem, acabou ele, sozinho, desolado, imerso em sua loucura, internado em seu próprio hospício.
Alonso Quijano, em meio às suas impossibilidades, crises pessoais e vivendo frente a um verdadeiro inferno pessoal, é aconselhado a se refugiar na loucura. Sendo louco, ninguém cobraria suas dívidas, o importunaria ou sequer levaria em consideração seus devaneios. Porém, para tanto, ele precisaria parecer louco. Nasce então o Cavaleiro errante Don Quijote de La Mancha. Em seu fim, após não concretizar nem mesmo em seu mundo inventado, o amor de sua Dulcinéia, após lutar contra moinhos de vento, caído ao chão, desolado, sem os dentes, seu fiel escudeiro o nomeia de Cavaleiro de Triste Figura. Naquele momento, Alonso Quijano sai de Don Quijote e se pergunta se a realidade é assim tão impossível de se viver, por pior que seja, ou se apesar de ter chegado ao ápice de sua loucura, não seria ela o lugar mais calmo, livre e seguro pra si.
O que nos resta de lucidez é suficiente para nos auto definirmos sãos? Já se perguntou o que aconteceria se você se abstraisse de tudo à sua volta, chegasse a um estado de elevação espiritual tal a olhar pro mundo que você acha que construiu de cima pra baixo? Será que você voltaria pra ele ou subiria em uma nuvem cósmica e viajaria para uma outra galáxia, distante, desconhecida, virgem de você e de suas certezas? Jacques Lacan disse: “Penso onde não existo, logo existo onde não penso.”
O fato é que precisamos dos outros para definirmos a nós mesmos. Tipificamos o outro a todo tempo e o tempo todo, mas ao fazê-lo, ao invés de colocarmos o outro em um lugar, estamos na verdade nos aprisionando em um inconsciente de nós mesmos. O problema é que tudo que alimentamos, cresce, se fortalece e acaba nos devorando.
Sigamos lutando pela virtude de Don Quijote, com as dúvidas de Jacques Lacan, os conselhos de Sancho Panza na tentativa de escapar do hospício de Simão Bacamarte. Quem sabe a doçura da lucidez não nos falte um dia e tenhamos que provar doses entorpecedoras de loucura?
Por Mardonio Gomes, um cidadão comum.



