Terça-feira, Maio 12, 2026
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O VASCO DA GAMA E OS HOMENS DA LEI

Desde 1916, quando decidiu diversificar suas atividades e se atrever a enveredar-se no futebol, na época um esporte da elite britânica no Rio de Janeiro, o Vasco da Gama iniciou um processo  histórico de resistência ao sistema. Ao contrário de seus rivais que adimitiam apenas membros da elite carioca de uma capital recém modificada em uma limpeza étnica se transformando na París dos Trópicos, o Vasco adimitia e recrutava negros operários e analfabetos excluídos do sistema. Ao ser campeão da série B e ascender à elite do futebol em 1922, o Vasco recebeu sua primeira pancada do sistema. A liga da época, LMDT (Liga Metropolitana de Desportos Terrestres) proibiu atletas “analfabetos” de disputarem o campeonato. Apesar dos esforços dos professores que trabalhavam nas imediações da sede do clube em ensinarem os primeiros atletas pobres e negros a lerem e a escrever, ainda assim o sistema mostrou o tamanho de sua crueldade. A Associação Metropolitana de Esportes Atléticos ( AMEA),  impôs ao Vasco que cortasse 12 atletas por serem pobres e negros. O Vasco abriu mão da Liga e permaneceu com seus atletas apesar do sistema. 

O Vasco seguiu seu caminho e retornou gigante acumulando títulos e encantando uma torcida provando que operários e “semi-analfabetos” também podem ser heróis. Depois de uma campanha popular inédita, em 21 de Abril de 1927, dia de Tiradentes, foi realizado o tão esperado sonho de uma nação, de uma família que só cresceu até hoje. A primeira partida de futebol em São Januário foi uma derrota de 5 a 3 para o Santos mas uma vitória eterna para o povo do Rio de Janeiro e do Brasil. Um estádio que foi, até a inauguração do Estádio Municipal Rio de Janeiro também conhecido como Maracanã em 1950, o maior da América Latina. O Vasco também foi o primeiro clube campeão no Maracanã marcando ali sua grandeza nas páginas da história.

De lá pra cá, o Vasco revelou talentos, ganhou títulos e o coração de uma torcida amada e amante do seu clube do coração. São Januário foi construído com donativos e em regime de mutirão e foi o primeiro estádio a apresentar iluminação noturna para uma partida de futebol. Ali chegara o fim do sofrimento em ter que pagar aluguel de campos de rivais para poder jogar. E o Vasco viria em sua saga contra o sistema começando a serem perseguidos por simbolizar o empoderamento popular no Rio e no Brasil. Aí começa a história dos camisas negras.

Depois de tantas conquistas e lutas e cinco rebaixamentos desde a série da CBF em campeonato de pontos corridos, o Vasco da Gama retorna ao seu lugar de prestígio, a primeira divisão, e se vê diante ao mesmo episódio que o marcará como símbolo de luta e resiliência. Sob a justificativa de que São Januário é cercado de favelas, a justiça do Rio decide banir o estádio ( Fechar a casa do Vasco) para jogos oficiais. Eles esquecem de que o Rei de Portugal e a Família Imperial eram mais vizinhos do Vasco do que seus pomposos rivais. Eles, enfim, depois de 125 anos de história, enxergaram a Barreira do Gigante da Colina. Eles criminalizam um povo, um estádio, um time, uma nação, ou quem eles queiram, mas esquecem de exigir do Estado que cumpra seu papel. “Para os amigos tudo, para os inimigos a lei.” Bem como dizia o velho Maquiavel. Assim como é e sempre foi o sistema, será a resiliência vascaína. O Vasco só vai crescer, vai ressurgir e logo voltará aos braços dos seus. Porque o Vasco é muito mais que um clube de futebol, o Vasco é um fenômeno da natureza. Assim como o Vasco, carnaval, samba, culinária, as mães pretas, nossa arte, literatura, cultura, as mãos que construíram esse país, assim como o mais fino do nosso futebol vieram da favela. E o sistema? O sistema passará e o Vasco PASSARINHO.

Dedico esse texto à toda Nação Vascaína e, em especial, ao meu estimado amigo Ariel Melo Borges.

Por Mardônio Gomes

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