Conhecendo a experiência de Catadores de materiais recicláveis de várias partes do mundo é possível reconhecer em sua prática uma essência criativa do ser humano ao transformar seu meio mesmo em condições adversas. No continente africano, por exemplo, as catadoras e catadores se dedicam à coleta de ossos que são transformados em jóias e adereços. Na Índia, a categoria coleta resíduos orgânicos e os transforma em gás para uso doméstico. Na França, onde a coleta de resíduos nas ruas é crime grave e onde as catadoras e catadores existem há séculos, a categoria se dedica a recuperar móveis, roupas e eletrodomésticos.
As adversidades pessoais são ainda mais desafiadoras, pois significam confrontar conflitos internos frutos de anos de traumas, negação e violência.
A categoria de Catadores é fonte de inspiração nesse quesito também, porque são inúmeros os casos de superação e transformação da saúde física e mental por meio do trabalho. Não o trabalho alienado, mas o trabalho solidário, esse que dá sentido à vida, que educa diariamente e que permite o desenvolvimento integral, que estimula a resolução de conflitos sempre com apoio da comunidade. São as cooperativas, associações e grupos os impulsionadores dessa transformação.
Esse modo de organização está na contramão do mundo capitalista da atualidade. O moderno e aceito socialmente é ser o empreendedor, aliar-se às novas tecnologias para mudar de vida, sozinho. Os aplicativos, ‘startups’ e grandes conglomerados de dados facilitam para que a classe trabalhadora se desconecte da comunidade e possa ser explorada individualmente. E 85% da categoria de catadoras e catadores ainda trabalha informalmente de modo individual, um prato cheio para quem quer enriquecer as custas dos pobres.
Mas o individualismo não é algo novo. A utopia é ver todas as catadoras e catadores organizados, trabalhando de modo coletivo, e por meio da reciclagem popular compartilhar a riqueza e o conhecimento gerados dos resíduos sólidos.
Roberto Rosa, Ativista Político



