Diante da grave situação pela qual passam os índios Ianomâmis, na Região Norte do Brasil , fiz um apanhado de fragmentos de opiniões de pessoas ligadas à proteção e conhecedoras dos povos indígenas; chego a conclusão estarrecedora de que a política de Bolsonaro foi genocida.
“Estamos vendo um filme que é repeteco de algo que já ocorreu”, diz a antropóloga Marta Maria Azevedo, que foi presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) entre 2012 e 2013, é pesquisadora do Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (Nepo) da Unicamp e professora do Programa de Pós-Graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). Ela compara a situação atual ao que aconteceu no final da década de 1980, quando cerca de 40 mil garimpeiros invadiram o território Yanomani e desencadearam uma crise sanitária que dizimou cerca de 14% da população, estimada, na época, em 30 mil indígenas.
Apesar do histórico de exploração mineral e de constantes invasões ao território Yanomami, Marta avalia que, nos governos anteriores ao de Jair Bolsonaro, “a terra ficou razoavelmente protegida de garimpeiros, embora sempre tivesse a entrada de um ou outro pela estrada”. Na gestão Bolsonaro, veio a suspensão de assistência de saúde indígena e a falta de cuidados durante a pandemia de covid-19, diz a antropóloga, que atuou no projeto União Amazonas Viva criado pelo fotógrafo Sebastião Salgado.
Não havia UTI na Amazônia
“Trabalhamos muito. Construímos redários (estruturas com rede para substituir macas) com oxigênio. O Bruno (Bruno Pereira, indigenista assassinado na Amazônia) também fez esse trabalho, porque não havia UTI na Amazônia”, lembra Marta, que participou de um trabalho pioneiro com os técnicos Fernando Damasco e Marta Antunes, do IBGE. “Fizemos um indicador de vulnerabilidade dos povos indígenas, publicado em fevereiro de 2020 pelo Nepo, para mostrar onde e quais indígenas sofreriam mais o impacto da covid. Foi um trabalho pioneiro da Unicamp.”
A professora lembra que, quando Bolsonaro assumiu a presidência, ele prometeu que não iria demarcar “nem um centímetro” de terra indígena. “Ele já assumiu dizendo que quilombola não é gente e que índio não é gente. Logo em seguida, ele foi incentivando o garimpo nas terras indígenas. Portanto, é óbvio que é uma política genocida, com intenções de genocídio. Essa situação dos Yanomami estava sendo vista pelos garimpeiros e pelos empresários, mas nada era divulgado.”
A antropóloga Marta Azevedo: “A iniciativa do Ministério da Saúde de fazer um chamado de médicos voluntários é muito importante
De acordo com a antropóloga, a cobertura de vacinação dos Yanomani é de apenas 15%.” “Pouquíssimos foram vacinados contra covid. No governo Bolsonaro, as bases de saúde foram precarizadas. Portanto, a alimentação foi afetada, porque sem saúde eles não caçam, não plantam, não pescam. Eles têm comida para um dia, não é como nós, que temos congelador. O congelador deles é a mata. A outra questão é a contaminação por mercúrio nos rios. Há uma população imensa de Yanomami contaminada por mercúrio, o que é gravíssimo, porque deixa sequelas neurológicas e prejudica o desenvolvimento de crianças. E tem a violência contra os indígenas. Os garimpeiros ficam perto das aldeias e violentam mulheres e crianças”, relata Marta.
Segundo a antropóloga, “a Funai não fez nada”. Não havia verba na gestão de Marcelo Xavier, ex-policial que presidiu a Funai e defendia o garimpo. “Foram vários fatores que fizeram a situação permanecer desconhecida. Algumas informações escaparam, como os casos de estupro de crianças, que a gente ficou sabendo. O que nós não ficamos sabendo?”, questiona a professora, que está confiante na atuação do Ministério dos Povos Indígenas, com Sônia Guajajara, e especialmente com a nova gestão da Funai, sob o comando de Joenia Wapichana.
Para Marta, a iniciativa do Ministério da Saúde de fazer um chamado de médicos voluntários para atenderem o povo Yanomami também é muito importante. “Junto com isso, um processo de desintrusão.” Mas a professora acredita que a sociedade civil também deve ter maior participação. “O governo não vai prescindir da ajuda da sociedade civil. Está na hora de fazermos uma aliança. Também estamos sendo atingidos, não são só os Yanomamis. A pobreza está aqui na porta da minha casa, e a água contaminada estará aqui daqui a pouco, e a falta de comida boa. Está tudo conectado. Não adianta pensarmos que é um problema de Roraima, lá longe. A cidadania é planetária. O governo Bolsonaro deixou os índios em petição de miséria, em todo o Brasil. Será difícil reconstruir o Brasil agrário, porque o campo está em guerra e continuará assim.”
Emergência sanitária
A antropóloga Marta Maria Azevedo conheceu a região Yanomami em 1987, quando houve a invasão do território indígena por 40 mil garimpeiros. “A área não era demarcada, e, logo após essa invasão, houve uma crise sanitária que dizimou cerca de 14% da população Yanomami”, lembra a professora. “Nós, antropólogos, já declaramos que foi genocídio.”
Ninguém sabia, naquela época, qual era a população exata, mas as estimativas feitas por antropólogos que trabalhavam na região eram de que havia cerca de 30 mil indígenas. Naquele momento, decretou-se emergência sanitária. Políticos como Severo Gomes, Ulysses Guimarães e Plínio de Arruda Sampaio visitaram a região, lembra a antropóloga. Todos eles estavam trabalhando na nova Constituição. “Essa época foi o auge da crise Yanomami, pouco antes da Constituição promulgada em 1988”, diz Marta Maria Azevedo.
Em 1987, após uma invasão, houve uma crise sanitária que dizimou cerca de 14% da população Yanomami
Imagens feitas em novembro de 2022 na região de Surucucu: em 1987, após uma invasão do território por garimpeiros, houve uma crise sanitária que dizimou cerca de 14% da população Yanomami.
Depois da nova Constituição que criou uma legislação de terras indígenas e da realização da Eco 92 no Rio de Janeiro, houve forte pressão para que o governo Collor demarcasse as terras e expulsasse os garimpeiros. O alto comissariado da Organização das Nações Unidas (ONU) enviou uma carta ao governo exigindo providências para enfrentar a crise sanitária humanitária Yanomami. “O governo então demarcou. Eu me lembro quando fui trabalhar no alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira, em 1992, onde havia muitos garimpeiros que tinham sido expulsos da terra Yanomami”, conta a professora.
Antes da invasão de 1987, já existia, desde o final dos anos 70, uma Comissão Pró-Criação do Parque Indígena Yanomami (CCPIY), que se pautou pelo exemplo do Parque do Xingu, demarcando uma terra ampla para que os povos pudessem transitar. O parque foi criado em 1991.
A área Yanomami
A terra Yanomami é como um “L”, descreve Marta. Uma parte fica ao oeste de Roraima, e outra, fica a noroeste do estado do Amazonas. A área Yanomami vai até o alto Rio Negro e chega ao Pico da Neblina. Em toda esta área, vivem subgrupos Yanomami, com diferentes línguas, mas da mesma família linguística. Toda essa região possui grande riqueza de minerais. “Tem muito nióbio, que é um dos minerais usados para a fabricação de celular. Além disso, é uma área de fácil garimpo de superfície. Mas agora entraram balsas imensas, como as que existem no Tapajós, onde há uma balsa do tamanho do estádio do Pacaembu”, afirma a professora.
Boa Vista, a capital de Roraima, fica a nordeste do estado. No centro da cidade, há uma praça chamada Praça do Garimpeiro, com uma enorme estátua de um garimpeiro. Em busca de enriquecimento, muitas pessoas do Nordeste e de outros estados do Norte migraram para esta região, como ocorreu em Serra Pelada.
De Boa Vista, sai uma estrada de 100 km que entra na área Yanomami. “A invasão de garimpeiros de agora é muito semelhante à invasão do final dos anos 80 e começo dos 90”, afirma a professora.
Portanto é preciso uma mobilização, não só do governo brasileiro, um engajamento mundial através das instituições humanitárias. A nós cidadãos brasileiros, cabe a conscientização e a pressão que temos que exercer para que essa tragédia não fique impune.
Roberto Rosa, Ativista Político



