Na Escola Municipal Orlando Diniz Ribeiro, em Araruama, duas gerações de professores compartilham mais do que a profissão. De um lado, Celeida de Oliveira, de 61 anos, que dedica mais de três décadas à alfabetização de crianças. Do outro, o sobrinho Diego de Oliveira, que há dois anos iniciou a própria trajetória na educação. Os dois encontraram no ambiente escolar uma nova maneira de fortalecer os laços familiares.
Nesta quinta-feira, 15 de outubro, Dia dos Professores, a história de tia e sobrinho revela como a educação pode atravessar gerações dentro de uma mesma família. Apesar de trabalharem em turnos diferentes, ela pela manhã e ele à tarde, a relação profissional continua mesmo depois do expediente.
Moradores próximos um do outro, os dois costumam se encontrar quase todos os fins de tarde para tomar um café. Entre conversas sobre o cotidiano, surgem dúvidas sobre os alunos, sugestões de atividades e relatos sobre os desafios de ensinar. A escola permanece presente, mesmo quando os dois estão longe dela.
A trajetória de Celeide na educação começou em 1989, na Escola Nair Valladares. Naquela época, a atual unidade onde trabalha ainda funcionava como um anexo, conhecido como “Nairzinho”. Ao longo dos anos, passou também pelo Mário Revelles, acompanhando as mudanças na organização das turmas de alfabetização, até retornar à escola onde pretende encerrar a carreira.
Ao recordar o início da trajetória na educação de Araruama, a professora conta que a alfabetização surgiu como uma atribuição logo após o ingresso na rede. O primeiro contato com a turma trouxe dificuldades, mas também abriu caminho para uma trajetória que já ultrapassa três décadas.
“Quando eu comecei, eu comecei a trabalhar no Nair Valladares. Eu gostei… O primeiro ano foi difícil, né? Porque é complicado demais até você se adaptar”, relembra Celeide.

O magistério, entretanto, já fazia parte dos planos da professora muito antes da primeira turma. Ser professora era um sonho de infância, que ela realizou e que acabaria encontrando continuidade dentro da própria família. Entre os familiares que também seguiram a profissão está Diego, filho de um de seus irmãos, onde trajetória acompanhou desde os primeiros anos escolares.
Ainda criança, Diego recebia a ajuda da tia para realizar as atividades de casa enquanto a mãe trabalhava. Mais tarde, quando chegou o momento de escolher uma formação profissional, o incentivo familiar voltou a aparecer. Para Celeide, o caminho da educação representava uma possibilidade concreta de o sobrinho concluir os estudos já com uma profissão.
“A gente sempre incentivou ele a estudar. Quando ele estava terminando o ensino médio, a gente falou: ‘É melhor você ir para a área da educação. Fazer formação de professores que aí você já sai com uma profissão.’ Aí ele fez isso. A minha outra sobrinha também. Agora ele tá fazendo faculdade de Educação Física”, conta a professora.
Para Diego, no entanto, a escolha profissional também nasceu de um desejo que o acompanhava desde pequeno. Crescer em uma família com vários professores fez com que a educação estivesse presente na rotina antes mesmo de ingressar no magistério. O convívio com a tia, em especial, tornou-se uma referência para aquilo que desejava construir.
“A minha história nessa profissão surgiu desde quando eu era criança. Sempre pulsou no meu coração essa vontade de ser professor. E, sem dúvida nenhuma, a minha tia e a minha família têm bastante influência nesse sonho. Sempre me incentivaram muito e hoje eu tenho a grande alegria de compartilhar a sala com a minha tia, compartilhar os projetos, atividades… Ela me ajuda muito nas partes que eu ainda não domino porque eu sou um professor novo, mas tenho muita vontade de aprender”, relata Diego.
Após concluir o nono ano, Diego ingressou no curso de formação de professores e, posteriormente, deu continuidade aos estudos no ensino superior, na área de Educação Física. Há dois anos, começou a trabalhar na Escola Municipal Orlando Diniz Ribeiro, onde passou a conviver profissionalmente com a tia. Hoje, como professor do segundo ano, enfrenta os desafios de ensinar crianças que ainda estão consolidando habilidades de leitura e escrita.
É nesse momento que a experiência de Celeide ganha um significado especial. Se antes ela auxiliava o sobrinho com os deveres de casa, agora compartilha orientações para que ele possa ajudar os próprios alunos. As dúvidas sobre alfabetização, a identificação dos níveis de escrita e as dificuldades de aprendizagem aparecem com frequência nas conversas entre os dois.

A experiência acumulada pela professora ajuda Diego a compreender situações que ainda são novas para ele. Mais do que receber atividades prontas, o jovem encontra na tia alguém disposto a dividir conhecimentos construídos ao longo de décadas de trabalho. Ele destaca, entre os aprendizados, a identificação dos diferentes níveis de escrita dos estudantes e as estratégias utilizadas no processo de alfabetização.
“Tá sempre compartilhando atividades, sempre me ensinando técnicas… Me ajudou muito a identificar os níveis de escrita dos alunos, tá sempre perguntando se eu tenho alguma dúvida. Então, é uma pessoa que soma muito”, afirma Diego.
A troca de conhecimentos, entretanto, não acontece em um único sentido. Enquanto Celeide compartilha a experiência pedagógica, Diego também contribui com aquilo que domina. Quando surgem dúvidas relacionadas à informática, é a professora quem procura o sobrinho. Entre os dois, a diferença de gerações se transforma em uma oportunidade para que ambos continuem aprendendo.
Essa parceria também ultrapassa os limites da escola. Mesmo trabalhando em turnos diferentes, os dois mantêm o hábito de se encontrar fora do expediente. Quase todos os fins de tarde, Diego vai até a casa da tia para tomar um café. As conversas, que poderiam se limitar aos assuntos familiares, frequentemente retornam à educação, aos estudantes e às atividades desenvolvidas por cada um.
“Nós moramos perto um do outro. Eu costumo ir lá quase todo final de tarde para a gente poder tomar um café junto. Todo dia é sobre a escola. Como eu trabalho na mesma escola que ela, ela trabalha na parte da manhã e eu trabalho na parte da tarde. Então é sempre um assunto diferente, é sempre ela mostrando atividades dela com os alunos, as dinâmicas… A gente troca atividades, troca recursos”, conta Diego.
A convivência também permite que o jovem observe de perto a dedicação da tia à profissão. Mesmo após mais de três décadas alfabetizando crianças, Celeide continua preparando atividades, organizando materiais e buscando ma…




