A operação da Polícia Federal deflagrada nesta sexta-feira (12), autorizada pelo ministro Flávio Dino no âmbito da Petição 14.949 do Supremo Tribunal Federal, confirma diretamente denúncias feitas pelo deputado Glauber Braga (PSOL RJ) sobre o esquema de desvio de emendas comandado a partir da Presidência da Câmara durante a gestão de Arthur Lira. O parlamentar, que há anos mantém posição firme contra a extrema direita e contra o centrão, sofreu retaliações políticas depois de expor o esquema que agora gerou mandados de busca e apreensão contra Mariangela Fialek, conhecida como Tuca, apontada pela PF como peça central no controle clandestino das emendas.
A decisão do STF registra que as investigações tiveram origem em manifestações públicas realizadas no plenário da Câmara e do Senado, incluindo diretamente os discursos do deputado Glauber Braga denunciando manipulação ilegal das emendas de comissão. De acordo com o documento, “as diligências tiveram início após declarações de parlamentares entre eles Glauber Braga que revelaram suspeitas sobre a manipulação irregular de recursos públicos”. A partir dessas falas, o ministro Flávio Dino determinou a abertura do inquérito que gerou a operação.
Nos trechos do depoimento de Glauber incluídos na decisão, ele descreveu um esquema completamente controlado pela Presidência da Câmara, com recursos direcionados para um núcleo político ligado a Arthur Lira. O deputado afirmou que parte relevante das emendas de comissão obedecia a ordens diretas do então presidente, e não às decisões das comissões. Ele relatou pressões, ameaças e interferências explícitas, destacando que o município de Rio Largo, reduto de aliados históricos de Lira, recebeu valores milionários sem justificativa técnica. Segundo Glauber, “parte do orçamento público hoje é controlado por um grupo pequeno de deputados e senadores”.
O ministro Flávio Dino considerou essa denúncia essencial para abrir a investigação, registrando expressamente no documento que Glauber Braga foi ouvido duas vezes e forneceu detalhes que “direcionaram as apurações à representada, indicada como principal responsável pela operacionalização do chamado orçamento secreto”. O STF reconheceu que os relatos do deputado foram fundamentais para revelar “um processo clandestino de distribuição de recursos públicos controlado a partir da Presidência da Câmara”.
A operação desta sexta feira cumpre mandados na residência e no gabinete funcional de Mariangela Fialek, apontada como responsável por manipular planilhas, redirecionar recursos e operar o sistema de emendas em benefício político de Lira. A PF afirma que ela mantinha documentos físicos e arquivos não oficializados que registravam a distribuição oculta das emendas, inclusive com “anotações manuscritas que moviam milhões de reais”, segundo o relatório citado pelo ministro.
A decisão do STF também destaca que, mesmo após a troca na Presidência da Câmara, a assessora continuou exercendo influência e controle sobre as emendas, o que reforça a robustez do esquema e a necessidade da operação policial. O Supremo concluiu que há “indícios extremamente robustos” de que as manobras buscavam driblar a Constituição e desobedecer reiteradamente às decisões da Corte sobre transparência no uso do dinheiro público, configurando crimes como peculato, falsidade e corrupção.
Glauber Braga, que historicamente tem enfrentado a extrema direita e o centrão, tornou-se alvo de retaliação política dentro da Câmara após denunciar o esquema. O parlamentar perdeu espaços, sofreu ataques e represálias, mas manteve suas denúncias. Agora, a operação da PF confirma que suas acusações tinham fundamento direto e substancial, como reconhece a própria decisão judicial.
A Petição 14.949 DF, assinada por Flávio Dino no dia 11 de dezembro de 2025, determina busca e apreensão de documentos, celulares, computadores e autoriza a quebra de sigilo de dados telefônicos e telemáticos da servidora, além de afastá la de qualquer atividade relacionada a emendas parlamentares. O ministro afirmou que a investigação revelou uma “estrutura organizada voltada ao indevido direcionamento de emendas parlamentares” sob influência da antiga Presidência da Câmara.
Com isso, o STF transforma em ato formal uma sequência de denúncias feitas há anos por Glauber Braga, que alertava para a existência de um esquema bilionário de captura do orçamento público. A operação da PF desta sexta feira é o primeiro passo judicial efetivo após a série de revelações feitas pelo parlamentar e outros deputados que também confirmaram desvios e interferências promovidas por Arthur Lira e sua equipe.
A investigação segue sob sigilo.




