A Argentina vive nesta segunda-feira o quinto dia consecutivo de dramática escassez de combustíveis em todo o país. Em plena campanha eleitoral e faltando menos de três semanas para o segundo turno, que será disputado pelo ministro da Economia do governo, o peronista Sergio Massa, e o líder da direita radical Javier Milei, o ministro e candidato ameaçou suspender totalmente as exportações das companhias petrolíferas com operações no país caso o fornecimento não seja normalizado nas próximas 48 horas.
As cenas de filas nos postos de gasolina da capital e das 23 províncias argentinas são a principal notícia no país desde quinta-feira da semana passada. Milhares de argentinos passam até três horas — nos postos onde ainda há gasolina ou diesel — esperando para abastecer. Em muitos outros postos foram colocados cartazes informando que os combustíveis acabaram, por tempo indeterminado.
— Há 15 dias começaram os boatos sobre desvalorização [do peso], e o que finalmente aconteceu foi que as empresas [do setor petroleiro] retiveram seus estoques. Se não normalizarem [o fornecimento] não sairá sequer um barco de exportação [de combustível] — declarou Massa, visivelmente irritado com a situação.
Atraso no reajuste
Um dos problemas colocado pelas empresas do setor ao governo é o atraso do reajuste de preços do mercado interno. Se nos últimos 12 meses a inflação acumulada da Argentina superou 120%, o preço, em média, dos combustíveis subiu 70%. A Casa Rosada vem pressionando as empresas para evitarem aumentos expressivos, mas as companhias, segundo informa nesta segunda a imprensa local, informaram às autoridades locais não estarem mais em condições de evitar um reajuste maior de preços.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2023/V/A/O1i3noRNWr35gZM9PjxQ/104866177-falta-de-combustible-y-largas-colas-para-cargar.-ypf-de-panamericana-y-roca.jpg)
Nas regiões de fronteira com países como Chile, Uruguai e Brasil, milhares de pessoas atravessam todas as semanas para a Argentina para abastecer seus automóveis. Segundo informou nesta segunda o canal de TV Todo Notícias, em cidades que fazem fronteira com estados brasileiros também é frequente ver argentinos que atravessam a fronteira e levam combustível para vender no Brasil.
A escassez de gasolina contaminou a campanha pela Presidência. O candidato do partido de direita radical, agora aliado com outros setores da direita, entre eles uma ala da aliança Juntos pela Mudança comandada pelo ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019), acusou Massa de ser o responsável pela crise nas redes sociais — onde tem milhões de seguidores.
— As companhias petrolíferas estão batendo recorde de produção este ano na Argentina, as pessoas precisam saber disso — disse Massa.
Especialistas como Juan José Aranguren, ex-presidente da Shell e ex-ministro de Energia do governo de Macri, afirmaram que os preços internos precisam ser reajustados para que as operações das companhias sejam rentáveis no país.
— O litro de gasolina deveria custar 900 pesos — assegurou Aranguren.
Atualmente, o litro de gasolina especial está em torno de 350 pesos, com variações mínimas.
A companhia que mais respeita os acordos com o governo peronista é a estatal YPF, que no último mês aplicou um reajuste de apenas 2%, no mesmo período em que a inflação mensal superou 12%. Esta semana, quando vencem vários dos entendimentos selados entre a Casa Rosada e as empresas do setor, são esperados aumentos de até 34% na gasolina e 28% no diesel, anteciparam meios de comunicação local.
Sem gasolina em algumas regiões
Em algumas províncias da Patagônia, como Neuquén, a gasolina acabou e não havia, nesta segunda-feira, previsão certa para a normalização do abastecimento. O mesmo acontece em províncias do Norte do país, como Tucumán. Canais de TV locais mostraram imagens de filas quilométricas de carros, motos e caminhões parados, esperando que chegue combustível.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2023/Z/4/bi0deYTSeBbQx4IoUQqw/screenshot-7.png)
O governo prometeu a importação de dez barcos de combustível para os primeiros dias deste semana, mas o abastecimento continua em estado crítico na grande maioria do país.
— Massa diz que o desabastecimento é porque as pessoas consomem muita gasolina. É a mesma resposta que dava Maduro quando faltava papel higiênico na Venezuela — afirmou Milei, tentando capitalizar mais um problema que afeta a economia argentina.



