Terça-feira, Maio 12, 2026
spot_imgspot_imgspot_imgspot_img
InícioColunistasO QUE O MESTRE MANDAR, FAREMOS TODOS!

O QUE O MESTRE MANDAR, FAREMOS TODOS!

O que você vê é o que realmente é ou seria uma distopia condicionada para te fazer acreditar no que te faz bem e ofuscar aquilo que não querem que você veja? Você já parou pra pensar que estamos sendo condicionados o tempo inteiro a consumir um produto que não se vê em nenhuma prateleira de mercado ou box de lojas on-line? Pois é, estamos consumindo ideologia o tempo todo. Tem uma frase que diz que ” se votar mudasse alguma coisa, certamente seria ilegal”. É uma visão bem pessimista para aqueles que acreditam que vivemos uma democracia plena e plural. Mas o que acontece aqui no andar debaixo é que reproduzimos tudo aquilo que nos é imposto e que consumimos de bom grado, sem questionar ou sequer notar. Até gostamos disso. Não é à toa  que nos inclinamos a exaltar tudo o que é estrangeiro ao mesmo tempo em que enfatizamos o pior de nós.

Desde que nascemos até a hora em que desligamos nossos sentidos, estamos sendo condicionados a nos tornar obedientes, passivos, ordeiros e amendrontados. Sem medo não há controle e sem controle não há ordem e sem ordem, adivinha! Não há progresso. Convivemos com pessoas de bem que escravizam nordestinos e os controlam em cativeiro com pistolas de eletrochoque, spray de pimenta e cacetetes e isso não nos choca. Mas choramos pelos refugiados de guerra da Ukrânia. Vemos a grande mídia nos empurrar para um estado letárgico dispensando o uso de ansiolíticos, desde que sigamos a sua receita de bolo que nos prende à nossa caixinha de bons moços do dia a dia. Não há fuga! Não há saida! Devemos sempre pensar no bem porque a moça da TV disse que tudo vai melhorar.

Sejamos subjetivos e se nós comprarmos a verdade que nos é oferecida, nada de mal vai acontecer. Estamos vendo uma mega mobilização de todas as instâncias de governo para recuperar um balneário de férias de milionários de uma forma jamais vista. Não foi assim no Morro do Bumba, nem em Petrópolis, nem na Bahia, nem mesmo em Brumadinho. Mas o maior problema não será a reconstrução das vias ou das cidades. O maior problema está sendo o que fazer com os pobres.  Não se vê solução pra isso não é mesmo? Seria a pobreza um problema sem solução? Uma espécie de chaga sem cura? Prefiro acreditar que a pobreza seja o único projeto de governo bem sucedido nesse país. Apesar do pobre, é claro. Não dá pra não notar que estamos vivendo em uma matrix. Está tão escancarada a desfaçatez dos governantes que basta abrir a janela e ver ao redor que há um mundo diferente do que aparece na tela do seu smartphone . E esse mundo está tão feio que, ao notá-lo, se volta para o mundo feliz do Tik-Tok de imediato. Aqui dentro, somos felizes, fúteis e domesticados. 

Vi um influencer postar, inebriado, em seu facebook, as vitrines do famoso Mercado do Ouro em Dubai. Tanta riqueza que ele sequer percebeu que em Dubai não tem sequer vestígio de ouro e que todo aquele ouro vem de minas de países africanos estraídos de forma deplorável e com mão de obra semi escrava. Mas o glamour de poder adimirar toda aquela riqueza sobrepõe a ética, a moral e desperta o desejo. Está tudo dentro do nosso smartphone. 

Essa base ideológica que nos vendem é suficiente para nos encabrestar e nos fazer negligenciar nossos assuntos mal resolvidos. Somos uma pátria de assuntos mal resolvidos. Formamos uma elite branca amamentada por mulheres pretas, formamos uma população missigenada que não se reconhece como tal, formamos uma classe média com crise identitária pois deseja ser o que não pode ser, acha que se comporta como européia e tem a prepotência de achar que, só porque foi à Disney, pertence a um cíclo cultural estadunidense. Formamos um pobre que se apaixona por seu “Sinhô” e idolatramos Gilberto Freire por ser o grande apaziguador de classes com sua obra quase que antropofágica Casa Grande e Senzala enquanto colocamos Paulo Freire na cruz e o queimamos rindo e brindando nossa própria ignorância. Produzimos Macunaimas.

Mas ai você se pergunta: se compramos tudo isso, pagamos com o quê? E eu respondo: com nosso bem mais precioso! Nosso voto e nossa força de trabalho. 

Hoje eu estava tentando explicar pro meu sobrinho-neto, Caio Valentim de 12 anos, a diferença entre ter um diploma aos 25 anos na minha geração e o que será ter um diploma na geração dele. Tentei explicar pra ele que em pleno século XXI, ainda não resolvemos nossa democracia racial e social. Quem tem diploma no Brasil, se for preso por qualquer crime, tem direito a prisão especial. Ele me perguntou o por quê. E eu disse que nem preso, o rico quer se misturar com o pobre e que, cada vez mais, com toda a precarização e uberização ordeira do trabalho, é só pra isso que um diploma serve. Pois bem, seguimos em nossa linha de abate rumo ao moedor de carnes, mugindo e brigando uns com os outros, nos matando, nos amando mas sempre seguindo as regras do jogo. Afinal, se a ideologia raramente deixa de cumprir o seu papel, por que nós deixaríamos de cumprir o nosso?

Por Mardonio Gomes

spot_imgspot_imgspot_imgspot_img