Estamos entrando em uma armadilha tão notória e redundante que ultrapassa o absurdo. Vamos esperar a copa acabar pra voltarmos ao humor e ao sarcasmo satirizando a grave consequência da banalização do mal. Tal qual no julgamento de Eichmann, chegaremos ao concenso de que os golpistas, os facistas e os terrorisras merecerão um salvo conduto por todas as barbáries cometidas porque, no final, eles são boas pessoas, cidadãos de bem que estão apenas passando por um surto de loucura. Estão fora de si. Afinal, o louco é um imputável.
Assim como Hannah Arendt, chegaremos a conclusão de que essas pessoas são pessoas normais que convivem com suas famílias, vizinhos, colegas de trabalho, etc. Pessoas que são ternas e cumpridoras de suas obrigações, muitos são filantropos e amam bichinhos, amam caminhar pela praia, pedalar pela natureza, amam cuidar de seus jardins e são atentos com seus idosos. Vamos chegar a conclusão de que, assim como nos campos de concentração Eichmann era apenas uma peça da engrenagem, um ator cumpridor de ordens, essas pessoas também só estão fazendo o que fazem porque alguém disse a elas que isso era o certo a fazer.
O que Weber chamaria de Jaula de Ferro e Arendt chama de Banalização do Mal, é o paradoxo do nosso dia a dia em que cumprimos sistematicamente a obrigação moral de sermos bons na tentativa de resistir a tentação de sermos maus. É aí que vem o risco da anistia. Achar que toda essa catarse é algo normal e que vai passar conforme a chamada RAZÃO for se restabelecendo é o mesmo que desconsiderar que a mesma RAZÃO faz com que, para essa massa de manobra, seja razoável ser vil.
Eichmann foi julgado em um tribunal e condenado à morte em 15 de Dezembro de 1961 por promover o genocídio de milhares de pessoas em campos de concentração durante o holocausto. E o que esperar para os Eichmanns de hoje? Passamos 21 anos de regime de exceção onde assassinos e torturadores se deleitaram impunes a seus crimes e jamais sequer foram julgados. Hoje eles repetem atrocidades, clamam por um retorno anacrônico da barbárie, riem e brindam mortes inocentes na alta cúpula do poder máximo da nossa República de Weimar enquanto rimos e fazemos memes de suas infantarias insanas.
Nós estamos banalizando as vítimas mais do que os crimes e assim, nós mesmos anistiaremos os maus, sambaremos de alegria por isso no carnaval e nos abraçaremos com os que outrora chamávamos de golpistas, fascistas, genocidas e nazistas porque somos mais felizes assim. Banalizar o mal nos faz tão canalhas e covardes do que quem os comete mas nós somos assim.
Seguimos inebriados por ícones que se apresentam capazes de nos levar à redenção mas que, no fundo, precisam de nós apenas para articular suas relações de poder e nos reduzir ao que Theodor Adorno chamava de Razão Instrumental onde nos cabe apenas exercer um tipo de racionalidade que não é crítica nem instrumental, se resume em obedecer e seguir sem questionar ordens e diretrizes sempre em nome da pátria, de deus ou da família ou de qualquer outra coisa. Nos transformamos em carne moída justamente por acharmos normal o ato cívico de se banalizar o mal. (Deixo abaixo, o vídeo com uma crítica ao filme: A Fita Branca)
Por Mardonio Gomes
Uma crítica ao filme a Fita Branca



