A jornalista Raquel Sheherazade fez duras críticas à megaoperação policial realizada nesta terça-feira (28) nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, que resultou na morte de 64 pessoas — entre elas, quatro policiais militares. Em uma análise contundente, Sheherazade classificou a ação como desastrosa e responsabilizou o governo de Cláudio Castro pelo que chamou de “tragédia anunciada”.
Segundo a jornalista, não há motivo para comemoração diante de uma operação que terminou com dezenas de mortos. Ela ressaltou que a polícia entrou nas comunidades para cumprir mandados de prisão, não para promover execuções. Sheherazade questionou o discurso oficial e pediu reflexão sobre quem eram realmente as vítimas. Para ela, não se pode colocar todos os mortos na vala comum do crime sem saber se eram de fato criminosos, se haviam sido julgados ou condenados.
A comunicadora destacou que o Estado brasileiro não tem o direito de matar e criticou a parcela da sociedade que apoia a violência policial. Segundo sua análise, muitos comemoram as mortes nas favelas porque acreditam que cada corpo a mais é sinônimo de mais segurança, quando, na verdade, isso apenas reforça a barbárie. Sheherazade afirmou que as vítimas da operação são, em grande parte, pessoas pobres, negras e marginalizadas, que não têm nome, rosto ou poder econômico, e por isso acabam sendo tratadas como descartáveis.
Em seu comentário, a jornalista também criticou a seletividade das ações de segurança pública. Ela apontou que os grandes responsáveis pelo tráfico de drogas e de armas não vivem nas comunidades, mas sim em condomínios de luxo, frequentando restaurantes caros e mantendo relações com figuras influentes da política e da elite econômica. Para ela, as operações nos morros servem apenas como espetáculo para mostrar eficiência, enquanto os verdadeiros chefes do crime permanecem intocados.
Sheherazade classificou ainda os policiais como vítimas de um sistema falido. De acordo com sua análise, muitos agentes, vindos das mesmas origens humildes dos moradores das favelas, acabam sendo usados como instrumentos de uma política de extermínio. “O policial é o bucha de canhão”, afirmou, ressaltando que são eles que enfrentam a morte diariamente e que acabam sujando as mãos de sangue em nome de um Estado que se omite diante das causas reais da criminalidade.
Ao concluir sua crítica, Raquel Sheherazade afirmou que a responsabilidade pelas mortes não recai apenas sobre quem atira, mas sobretudo sobre quem ordena. A jornalista defendeu uma mudança profunda na política de segurança pública, que substitua a lógica da guerra pela lógica da inteligência e da justiça social.
A operação desta terça-feira foi uma das mais letais da história do Rio de Janeiro. Além das 64 mortes e 81 prisões, houve registro de diversos feridos, incluindo policiais e moradores. O governador Cláudio Castro defendeu a ação, enquanto entidades de direitos humanos pedem investigação independente sobre o caso e denunciam o uso excessivo da força policial.



