Terça-feira, Julho 28, 2026
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Mestre Harildo leva a tradição da pesca artesanal de Arraial do Cabo para Brasília

Há saberes que atravessam o tempo, histórias que passam de geração em geração e tradições que encontram nas pessoas a força necessária para permanecerem vivas. Em Arraial do Cabo, a cultura da pesca artesanal é feita assim: pelas mãos, pelas memórias e pelos ensinamentos de quem dedicou a vida a preservar os conhecimentos que ajudam a contar a história do município.

Aos 80 anos, Harildo Francisco dos Santos, conhecido carinhosamente como Seu Harildo, é uma dessas pessoas. Pescador, artesão e mestre dos saberes tradicionais, ele construiu uma trajetória marcada pela relação com o mar e pela dedicação à construção e restauração de embarcações artesanais, tornando-se uma referência na preservação da cultura pesqueira cabista.

Sua história com a carpintaria naval começou ainda na infância. Aos 12 anos, enquanto ajudava a família vendendo doces pelas ruas da cidade, encontrou na praça da Igreja Católica uma cena que mudaria sua trajetória. Ali, Seu Duca de Conceição e Seu Manduca Passarinho trabalhavam na reforma de canoas de boçarda. Curioso, o menino parava para observar o trabalho sempre que passava pelo local.

“Em frente à Igreja Católica tinha uma amendoeira onde eles trabalhavam, reformando as canoas de boçarda. Eu passava vendendo doces e ficava olhando. Quando eu demorava, eles falavam: ‘Ô menino, vai vender suas cocadas que sua mãe está esperando para fazer mais’. E eu respondia: ‘Eu estou olhando o senhor trabalhar, porque estou gostando. Eu vou aprender a fazer isso também’. E foi assim que comecei”, relembra Harildo, com um sorriso.

Mais de seis décadas depois, o conhecimento que começou com um olhar curioso de criança se transformou em um legado. Mesmo tendo perdido a visão há mais de 20 anos em decorrência de um glaucoma, Seu Harildo encontrou no tato uma nova forma de continuar seu trabalho. Com as mãos, passou a reconhecer formas, texturas e detalhes, mantendo viva a habilidade de restaurar embarcações e construir pequenas canoas artesanais.

Sua trajetória reúne diferentes dimensões da cultura e da vida comunitária. Além de pescador e artesão, Harildo é mestre sabedor, pai de santo, líder religioso e coordenador do Centro Umbandista Pai José do Congo, mantendo uma atuação marcada pela transmissão de conhecimentos e pela preservação das tradições.

Seu trabalho ganhou reconhecimento nacional recentemente, quando Seu Harildo recebeu a Premiação de Mestres e Mestras das Culturas Tradicionais e Populares da Pesca Artesanal Brasileira, por meio do edital Culturas Pesqueiras Artesanais do Brasil. A homenagem foi entregue em Brasília, durante a Semana Nacional da Pesca Artesanal, promovida pelo Ministério da Pesca e Aquicultura.

“Essa premiação foi muito importante para mim. Eu ganhei pelo esforço que fiz e pela sabedoria que tenho. Os pescadores dizem que estou lutando por um espaço que vai ficar para os meus netos quando eu não estiver mais aqui. Mas eu não quero que seja apenas para isso. Quero que a oficina naval e o museu artesanal continuem, para que, quando os turistas e outras pessoas vierem, possam conhecer a minha história e a sabedoria da nossa gente. Eu não quero que a cultura da nossa pesca acabe”, reforça.

E é justamente para garantir que esse conhecimento continue navegando pelas próximas gerações que Seu Harildo mantém a Oficina Escola Naval Mestre Harildo, onde ensina gratuitamente a quem deseja aprender a construir as tradicionais canoinhas artesanais. Para participar, basta procurar o espaço, que fica localizado no canto final da Prainha (Avenida Alfredo Dante Fassini – Esquina com Rua José Pinto de Macedo), ter disponibilidade e, principalmente, vontade de aprender.

Durante as aulas, cada aluno participa de todo o processo de construção e produz três canoas artesanais. Uma delas fica com o próprio aprendiz, enquanto as outras duas permanecem na oficina, contribuindo para a exposição e para a preservação dessa história.

A guarda ambiental Lohana Duarte, moradora de Arraial do Cabo, é uma das pessoas que encontrou na oficina uma oportunidade de aprender com o mestre. Ela conheceu o trabalho de Seu Harildo por acaso, enquanto passava pela praia, e se encantou com o processo artesanal. Com o tempo, passou a frequentar o local e também decidiu se tornar aluna.

“Na minha casa tinha uma canoinha parecida com essa. Como eu já vinha ajudar o Seu Harildo, pensei: ‘Já que eu tenho uma em casa, também quero fazer a minha’. Comecei a participar das aulas e ficava de três a quatro horas aqui para aprender. Ele é um professor muito bom e ensina cada detalhe, todo o processo. A gente cava, lixa, pinta, passa massa e, em todas as etapas, ele está aqui para ajudar. Gosto muito de estar aqui e de aprender com ele”, conta.

Entre ferramentas, madeira, histórias e ensinamentos, a oficina se transforma em uma verdadeira sala de aula a céu aberto. Ali, o conhecimento não está apenas nos livros: está nas mãos de quem aprendeu com os mais velhos e escolheu compartilhar o que sabe.

O reconhecimento recebido em Brasília representa, portanto, muito mais do que uma homenagem individual. É o reconhecimento de uma história construída por muitas gerações de pescadores e artesãos de Arraial do Cabo. Ao ensinar jovens e adultos a construir suas próprias canoas, Seu Harildo mantém acesa uma tradição que poderia se perder com o passar dos anos e ajuda a garantir que os saberes da pesca artesanal continuem fazendo parte do futuro do município.

Seu trabalho mostra que preservar a cultura também é ensinar, compartilhar e abrir espaço para que novas pessoas conheçam e deem continuidade às histórias que formam a identidade de um povo. E, enquanto houver quem queira aprender e um mestre disposto a ensinar, a tradição da pesca artesanal cabista seguirá navegando, pelas águas de Arraial do Cabo e pela memória de suas futuras gerações.

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