A Prefeitura de Cabo Frio divulgou o resultado do Concurso Municipal de Poesia, realizado em homenagem ao centenário da Ponte Feliciano Sodré. As obras foram avaliadas por uma Comissão Julgadora composta por profissionais das áreas de literatura, cultura e educação. Para os vencedores, serão concedidos os prêmios de 1º Lugar – R$ 1.000, 2º Lugar – R$ 600 e 3º Lugar – R$ 400. De acordo com o regulamento divulgado previamente, o pagamento poderá ser efetuado em até 90 dias após a divulgação do resultado.
O concurso selecionou e vai premiar poemas inéditos inspirados no tema “Ponte Feliciano Sodré: Cem Anos conectando Histórias”. As obras abordam, de forma livre e criativa, aspectos históricos, culturais, afetivos, paisagísticos ou simbólicos relacionados à Ponte Feliciano Sodré e à cidade de Cabo Frio. O centenário da ponte foi comemorado no último de 14 de julho.
Confira abaixo as obras vencedoras:
1º Lugar: A Ponte da Memória – Kéren-Hapuk
Embaixo dessa ponte construí memórias sem saber
ao acordar cedo e ver o céu azul reluzindo a manhã
O cheiro do café era o aroma que anunciava
que o dia seria eternizado, e com o perfume da memória marcado
O café da avó, o trigo, o pão, o alimento matutino
acompanhava o ritual daquele sábado genuíno
De abrir a maleta, separar os anzóis
desenrolar os fios de nylon, como da vida os nós
Era dia de alegria, da minha melhor companhia
de correr do portão ao Canal do Itajurú, sabendo aonde ia
A surpresa mais incrível era o estonteante visual
de águas claras que banhavam os olhos daquele mágico canal
Os olhos daquele canal, eram a Ponte Feliciano Sodré
que cobria tantas memórias, levadas pela maré
Com suas curvas peculiares e arquitetura branda
a ponte era cenário e memorial, com a sua cor branca
Os olhos de meu avô, eram azuis da cor da água
do mar de Cabo Frio, da lagoa, do céu anil
Nessa memória de ponte, a Feliciano é o ponto
de encontro, de história, do passado e do agora
Embaixo da ponte: desconhecidos, meu avô e eu
brincávamos de pesca, à sombra desenhada
Enquanto o sol reluzia dourado nas águas claras
reluzia em mim o tempo e a ponte eternizada
Tainha, pargo e peixe-espada na água. No céu, garça e urubu
eu tentava lançar a linha, mas só pescava baiacu
Meu avô sorrindo de graça com seu bigode de fronte
era o quadro pintado e a moldura era a ponte
Eu soube que sobre ponte minha avó pedalou, e se acidentou
que meu avô pescou, e o carro do meu pai na chuva guinchou
que os meninos faziam de trampolim, e que meu tio-avô pulou
e tantas outras histórias a ponte eternizou
desde a sua inauguração, até os passos que dou
Os passos que dou viajam no tempo
de quando os Tupinambá remavam lagoa adentro
Do primeiro povoado urbano, no bairro Passagem
vejo as travessias marítimas, como uma miragem
Expedições guerreiras dos Goitacá
piratas invasores vindo do litoral Norte, de lá
Da agricultura fez brotar o grão da ligadura
a travessia nos assoreamentos com carros-de-boi e perna dura
Do Morro da guia ao Telégrafo uma ponte de ferro se criou
entre estórias, salinas e restinga a ponte desabou
E no ano vinte e seis, a inauguração da nova ponte
a Ponte Feliciano Sodré, que conta a história de hoje e de ontem
Quantas histórias ainda essa ponte há de contar?
moldura da pintura memória de meu avô, e cenário da minha infância
Quantas fotografias ainda essa ponte irá registrar?
histórias que estão nos livros, e nos ancestrais, em minha guiança
Quantas memórias ainda essa ponte há de guardar?
do passado ao futuro, uma certeza dirá, que toda sua travessia um dia será lembrança.
2º Lugar: A Ponte e o Tempo – Flavio Machado
À tarde, quando o poente doura as águas devagar, meu arco parece um verso. Que aprendeu a flutuar.
Até o sol faz uma pausa. Antes de me atravessar.
Há um lugar. Onde a água hesita.
Sobre o brilho móvel das horas.
O vento, empilhando sal.
A ferrugem, essa lenta floração dos metais.
As pedras aprendendo o idioma úmido das marés.
Nenhuma chegada. Nenhuma partida.
Apenas o intervalo onde duas distâncias esquecem seus nomes.
O canal não separa, com suas veias. O dorso de peixe e espelho
Respira. O rumor do século ainda sem idade.
Toda ponte nasce de uma impossibilidade.
Depois, o impossível adquire forma, peso, sombra, silêncio.
A paisagem, aceita uma nova geometria.
sem perceber o desenho humano inscrito no vazio.
A ponte costura horizontes.
A palavra procura outra palavra.
Sílaba ao lado de sílaba.
Como pedra sobre abismo.
Como voz sobre silêncio.
Talvez o tempo não passe.
Talvez apenas mude de superfície.
A água o veste.
O vento o desarruma.
A manhã lhe oferece outro corpo.
Cada sombra uma infância.
Cada reflexo uma despedida.
Cada claridade uma promessa.
A luz, esse delicado costume das coisas recusarem o desaparecimento
Há cidades de lembranças.
E algumas de travessias construídas de pontes.
Talvez seja apenas uma tentativa
de aproximar aquilo nascido distante.
O espaço entre duas mãos.
O arco invisível que nenhum engenheiro desenha,
mas toda memória reconhece.
Porque uma ponte pertence. A quem por ela passou.
3º Lugar – A voz que o tempo guardou – Synara Monteiro
Desperto e descanso às margens do Itajuru.
Meus olhos serenos
contemplam o amanhecer
dourado sobre o canal.
Cabo Frio ainda adormece;
o dia ainda nem chegou.
Zelando, ainda me encontro.
E a rotina rouba a cena.
A energia da vida toma os espaços;
perfumes e sons se misturam.
As horas correm sobre mim.
E, como um sopro,
uma brisa doce chega.
Noite estrelada,
silêncio da lua,
motivo para os enamorados se encantarem.
Escuto segredos dos amantes,
começos e despedidas.
Por vezes,
minhas lágrimas se misturam às chuvas;
em outras, sorrisos se fazem entre olhares.
Sou aquela sensação de chegada,
deslumbre da minha morada.
Mas também sou, só,
partida que afoga,
um adeus com vontade de voltar.
Meu destino foi traçado.
Sou caminho daqueles que buscam recomeços.
Meus pés repousam sobre águas salgadas;
uno as margens da minha Cabo Frio.
O tempo foi generoso comigo.
Vi crianças voltarem,
já adultas,
de mãos dadas com seus próprios filhos.
Sou feita de concreto armado;
veleiros dançam sob mim.
Uno margens, aproximo destinos;
testemunho encontros e desencontros.
Conduzo olhares ao nascer
e ao pôr do sol que veste Cabo Frio de ouro.
Na firmeza do que fui feita,
sigo em pé, forte e majestosa.
E, em toda a minha altivez,
sou delicadeza no olhar,
inspiração dos poetas.




