O debate racial no Brasil exige seriedade, mas o que se vê em certos setores da esquerda é justamente o contrário. Conceitos como o chamado “pacto da branquitude” prestam um desserviço. Em vez de iluminar, obscurecem. Em vez de unir, dividem. Transformam o diálogo em trincheira e a crítica em ressentimento.
É um conceito que acusa mais do que explica. Ao colocar sob a mesma acusação o bilionário dono de conglomerados e o pedreiro que pega três conduções por dia para sobreviver, dilui a complexidade do problema e coloca tudo no mesmo saco. A simplificação grosseira de que todo branco, independente de classe, é cúmplice de um mesmo privilégio não apenas ignora as desigualdades de classe como também apaga a realidade de milhões de trabalhadores pobres que vivem à margem, sem qualquer benefício real desse suposto pacto.
O resultado desse tipo de abordagem é uma cegueira política perigosa. Em vez de explicar as engrenagens do racismo estrutural brasileiro, ela cria fantasmas e inimigos fáceis. Substitui a análise pela acusação, o diagnóstico pela sentença, e a possibilidade de construção de pontes pela imposição de muros. Quem ganha com isso não são os negros pobres, tampouco os brancos pobres: quem se fortalece é a elite econômica, que continua explorando a desigualdade e assistindo, de camarote, ao espetáculo da divisão entre aqueles que deveriam estar unidos contra ela.
Parte da militância universitária, amparada nesse discurso, prefere patrulhar comportamentos, atacar casais interraciais e hostilizar pardos, como se fosse possível purificar a luta pela exclusão e pela suspeita permanente. Esse tipo de militância não é resistência, nem é luta: é retórica tóxica travestida de política. E quando setores da esquerda endossam esse caminho, substituem a luta por justiça social pelo cultivo de ressentimentos, transformando uma pauta histórica legítima em uma arena de rivalidades estéreis.
A consequência é trágica. A classe trabalhadora, já fragmentada pela precarização e pelo individualismo, se vê ainda mais dividida. Brancos pobres e negros pobres, que deveriam estar lado a lado na busca por igualdade, são empurrados para campos opostos, tratados como adversários. A solidariedade, que deveria ser o cimento de qualquer projeto emancipatório, é corroída pelo discurso da suspeita e da culpa coletiva.
Combater o racismo é uma tarefa inadiável e exige coragem intelectual, compromisso com a realidade e disposição para o diálogo. Isso significa enfrentar privilégios reais, desmascarar as estruturas que perpetuam a desigualdade e propor soluções concretas, em vez de fabricar rótulos que apenas ampliam o ressentimento. O desafio é construir pontes entre diferentes setores sociais, não muros que isolam e condenam.
Se o objetivo é justiça, a esquerda precisa recuperar a lucidez e abandonar a retórica fácil que transforma companheiros de luta em inimigos imaginários. O combate ao racismo exige clareza histórica, compromisso coletivo e generosidade política. Invocar ódio e ressentimento onde deveria haver diálogo e união não é luta: é um desserviço histórico, um pacto da confusão que só interessa a quem lucra com a desigualdade.




